O FIM DO MUNDO

Fato consumado. Quando acordamos naquela manhã, sabíamos há tempos que seria a última manhã. Porque futuro não existiria depois desse dia. Essa realidade, cruel talvez, que pode causar dramas, lamentos, pesares, não surgira da noite para o dia. Avisados fomos, muitos correram feito barata para qualquer lugar, outros rezaram, rezaram, mas Deus – como sempre – não ouviu ninguém, alguns deram de ombros e poucos, quem sabe apenas eu, disseram “finalmente”. Não havia saídas, resoluções diplomáticas, milagres. O mundo tinha seus dias contados e não importa de verdade o por quê.

Como o fim era certo, e assim sempre foi afinal o fim era a nossa única certeza desde o início, as pessoas, depois do choque inicial, levaram suas vidas como faziam todos os dias. Alguém de outro mundo que desembarcasse no planeta terra e não soubesse de seu canto dos cisnes, jamais imaginaria que o tempo corria e que não correria mais logo ali, daqui a pouco. Absorvermos a dor, aceitamos, fizemos o nosso melhor e por isso mesmo, acredito, nunca viver nesse espaço foi tão VIVER.

O caos não houve. As classes sociais se dissolveram. Trabalhava-se pelo prazer. Fome não se passava. Frio idem. Solidão não se via. Um admirável mundo novo se fez diante do apocalipse iminente. E fomos felizes. Alguém (para celebrar? E por quê não?) vislumbrou nosso acabar com luzes, som, abraços, beijos, festa, cachaça, cannabis, pecados, mas não uma orgia de Calígula, desesperada e solitária…

Ninguém deu nome para a despedida. Ninguém criou contratos, aceitou dinheiro ou colocou empecilhos. Não, na verdade, todos queriam estar presentes. Então, imensos telões foram montados nos maiores estádios do planeta. A celebração da vida começaria com o fim do dia no norte. Havia sol – mais vermelho do que de costume – no sul. Aqueles irlandeses do cantor de óculos escuro foram os primeiros. Onde tocavam ao vivo pouco importava. Todo mundo voltava seus olhos para eles. Aquela guitarra, ah, aquela guitarra, antes do fim do mundo.

Nem todos, centenas quem sabe, não foram às arenas. Para eles, templos, igrejas, mesquitas, mantinham suas portas abertas. Havia cinco crentes numa, outros 12 noutra, mais 3 naquela ali. Se Deus a todos abandonou, todos resolveram também abandonar Deus. Amém…

Agora, o som triste de uma gaita de fole ecoava e sete bilhões de seres humanos suspiravam. Shouganai, dizia os japoneses. E mãos dadas se viam como nunca em nossa história. Uma moça bonita, de olhos castanhos, pequena, frágil até, pegou o microfone. Suavemente declamou os mais belos poemas e “no meio do caminho tinha uma pedra”.

Com a madrugada que se aproximava do norte vinha o fim. Todos os corações dispararam, se fosse possível ouvi-los o barulho seria ensurdecedor, os dois que sobraram dos quatro de Liverpool subiram ao palco e o mundo bateu palmas uníssono, sufocando os corações tumtumtumtumtumtum. Paul disse Oi e cantou o que todos queríamos cantar. Mais sorrisos no mundo do que desespero. Não havia alma sozinha. Não havia boca fechada enquanto os dois dos quatro comemoravam, sim, comemoravam.

E se os dias todos antes tivessem sido como o último?

The last song, disse Paul. Meu filho apertou minha mão. Apertei sua mão. Todo mundo fez isso. Era a deixa, era a certeza de que amanhã não seria amanhã. Leo disse tudo bem, eu disse tudo bem. E the last song, uma suave ironia com um doce sorriso no canto, gracejou com simplicidade assim “and in the END, the love you take is equal to the love you make”

No sul, o sol morria no mar para nunca mais…

Rascunho #3

O BRASIL DE 82

Há uma semana morria o doutor Sócrates. Não vou escrever sobre ele porque muitos já falaram e de formas tão bonitas que minhas mal traçadas linhas nem chegariam perto. Não posso, no entanto, deixar passar uma coisinha sobre essas homenagens, justíssimas diga-se. Invariavelmente, aqueles que destilaram laudas e laudas sobre o craque mencionaram – mais ou menos – a seleção brasileira de 1982. Aquele time formado por Telê Santana que tinha no mesmo meio-campo Zico, Falcão e Sócrates. E não era “só” isso. Havia Leandro e Júnior nas laterais. Nas zagas, se revezavam Oscar, Luizinho e Edinho. Na ponta esquerda, tinha o Éder. Na direita não tinha ninguém, mas sempre aparecia por lá Paulo Isidoro, entre outros, e como centroavante passaram pela nove Careca (que seria o titular do time se não tivesse se machucado), Reinaldo (outro titular ferido) e Serginho que acabou sendo o homem-gol do time na Copa da Espanha. Enfim, um timaço.

Repito o primeiro parágrafo: o mais interessante dessas homenagens ao Magrão é que não houve pessoa do mundo que não lembrasse desse time maravilhoso (acho que colocaria esse Barcelona de Messi na roda), de Sócrates jogando fácil ao lado de Zico, de Falcão chegando com toda maestria que lhe cabia e por aí vai. Mas o detalhe é que aquela equipe – e lá se vão quase 30 anos – não ganhou nada. Perdeu a Copa do Mundo e ficou na história. Como pode?  Todos que falaram de Sócrates, se lembraram dessa seleção com saudade, não tristeza. O que teria sido do futebol se o jogo bonito tivesse vencido? Talvez, a última coisa boa que a amarelinha produziu, mesmo tendo conquistado títulos mundiais depois, em 1994 e 2002. Acho que foi o Flávio Gomes – comentarista da ESPN –  que disse que foi o último Brasil pelo qual ele torceu. Concordo.

Eu era moleque em 82, tinha sete anos. Foi minha primeira experiência real de Copa do Mundo. Fã de Zico, amante do futebol, meu coração batia acelerado a cada partida daquele time. E veio a Itália, veio a derrota que não se esquece e antes de fechar o livro por que não lembrar de Sócrates na direita chutando com força na saída de Zoff?

Gooooll do Brasil!!

E eu pulava de alegria como nunca mais.

Era bom ser criança naquele instante, era bom ver seus heróis te encherem de vida…