A tempestade

Lara sempre achou que sabia como seria o fim. E esse traria explosões, portas fechadas com violência, raiva e ódio. Lara esperava esse fim há tempos e por isso mesmo estava preparada. Claro, não imaginava, porém, que aquele momento tão orquestrado em sua mente estaria agora sim nesse exato instante se tornando real. Havia uma sala. Ela sentada numa cadeira que perfeitamente a colocava no meio da grande mesa. Outras pessoas estrategicamente se colocavam do outro lado. A olhavam com resignação e preocupação. Lara então percebeu que o fim se desenhava e mesmo pronta pra isso suas mãos gelaram e seu coração disparou quase saindo pela boca. Ninguém percebeu isso porque claro ninguém nunca percebeu nada.

“Você tem algum problema?” E essa foi a senha para tudo ter início. Chocada com a pergunta, Lara pensou responder “tenho há tempos, você nunca percebeu?”, mas estranhamente a velha moça se calou e as palavras se soltaram daquelas bocas e eram tantas e tantas coisas diziam que Lara se confundiu. “Será de mim que estão falando?” E as frases se multiplicavam, o volume aumentava e Lara não via as explosões nem as portas fechadas com violência, nem a raiva e ódio. Lara naquela cadeira imensa, no meio da sala, se apequenava e, misteriosamente, pela primeira vez talvez, não reagia, nada dizia, apenas escutava a reverberação de sons que agora a deixavam surda.

As pedras foram atiradas em sua direção, os dedos apontados para ela diziam “ela é o cão, ela é o mal, ela não presta, ela deve morrer, ela não presta”, no entanto, quando tudo isso começou Lara pequeninha quase não distinguia o som das letras, palavras, períodos. Lara se calava e agora não mais ela, Lara andava pequena demais para andar sozinha segurando as mãos de um homem mais velho. Ele segurava um pequeno balde cor de rosa e dentro as conchinhas que Lara achava feliz quando as ondas do mar partiam felizes para qualquer lugar. Lara segurava com força aquelas mãos velhas e agora sabia sim ela sabia que não poderia dar errado e que no fim ah esse fim tudo teria valido a pena ou não, mas Lara não se importava mais com isso…

“Pai, achei mais uma”

MAMÃE

Foram tantos e muitos diriam que no fundo todos foram iguais. Eu que vivo essa vida há tempos, percebo as nuances. Não são iguais. Fazia o que faço ainda hoje há cinco, seis anos quando me deparei com Bia e Luca. Bia era a filha, cinco primaveras no máximo. Luca era o pai, mais de 30, cabelos grisalhos, barba feita, um olhar cansado e triste, que poucos, ou talvez ninguém, notassem ser cansado e triste. Ambos enterravam a mãe, a esposa, e um vendaval de sentimentos  – perda, tristeza, solidão – inundava aquela sala pequena de velório.

Eu, espectador de sempre, via Bia sentada na cadeira ao lado do caixão. Bia se levantava, sentava de novo, ficava de pé, mas em nenhum momento tirava os olhos da mãe. Luca estava ao lado da menina e assim foi o tempo todo. Às vezes, uma lágrima escorria, em outros momentos, ele encostava a cabeça na parede e fechava os olhos. A menina, nessas horas, pulava em seu colo. Com a mãozinha, acariciava o rosto do pai, brincava de roubar o nariz. O pai sorria, sorria sincero. Assim foi. Poucos segundos um dos dois saía da sala, que se enchia conforme a madrugada partia. Nem Bia, nem Luca, deixavam a esposa, a mãe, sozinha por muito tempo.

Percebia a dificuldade de Luca receber as pessoas. De fato, era evidente, o quanto o incomodava ter que ser sociável nesse momento. Parecia que ele queria que todos fossem embora ou explodissem. A menina não. Bia recebia a todos com simpatia.

“Você veio ver minha mãe? Ela tá ali, tá bonita, mas não faz barulho não, senão ela acorda! Deixa mamãe dormir quietinha!”

Poucos antes do sol aparecer, Luca aconchegava Bia, que finalmente tirava um soninho. Coisa rápida, vinte minutos. Quando a menina acordou, ainda deitada no colo do pai, ela o encarou. Estava séria, como não estivera até aquele momento. Luca estranhou, sua menina sempre acordava disposta.

“Sonho ruim?”

“A mamãe falou comigo!”

“Que bom, Bia!”

“Ela mandou eu cuidar de você, não deixar você de barba grande, não deixar você parar de correr, pediu também para você dormir no meu quarto porque eu tenho medo do escuro, né?”

“Hum, Bia, sua mãe não mandaria eu dormir no seu quarto (risos)”

“Verdade, papai. Ela falou que você pode dormir lá enquanto eu tiver cinco anos. Porque quando eu fizer seis não terei mais medo de nada!’

“O pai dorme contigo…”

Bia continuou encarando o pai que perdeu o olhar em alguma coisa que ele não sabia dizer o que era, quem sabe, o futuro.

“A mamãe não tá dormindo né?”

“Não…”

“Pai, eu não tenho medo só do escuro.”

“Eu sei… eu cuido de você”

A conversa silenciou. Bia saiu correndo. “Vou ver o cemitério!” e foi. Luca ficou. Quando se viu de fato sozinho, foi até o caixão. Passou a mão pelos cabelos da moça, “roubou o nariz”, sorriu. Disse algo baixinho. E se deixou levar pela dor que doía tanto tanto tanto que nem eu pude evitar sofrer junto. Luca sozinho chorava a vida que partia.

Quando Bia voltou, toda excitada, contando suas aventuras em meio a tumbas e gatos gigantes e esqueletos falantes, o velório estava no fim. Alguém puxou uma oração, que a menina fazia questão de acompanhar. O pai não, ele não acreditava em deus. Amém. Vão fechar o caixão e Bia não entende. Ela se aperta no pescoço do pai, sem tirar os olhos da mãe. O que se passou, então, me deixou marcas.

“Pai, acorda a mamãe! Ela também tem medo do escuro. Não deixa ela no escuro. Pai, a mãe não vai acordar? Mamãe, vai embora não! Mãe… fica!”

E aí a menininha não disse mais nada. Luca a apertou mais ainda no seu colo. Beijou sua testa.

“Vamos, Bia, a mamãe precisa descansar!”

A sala ficou vazia em alguns minutos. O céu estava azul. Era um belo dia, sim, um belo dia.

DÉJÀ VU

Ato I

Um coquetel. Uma mistura das mais variadas químicas existentes no submundo circulava pelo seu sangue. Isso não o matava, ainda. Porém, seus movimentos e a razão se perdiam a cada segundo entre algo que se encontra no caminho que separa o inferno do purgatório. “Que dia difícil”, ele pensava. Um instante foi suficiente para recordar sua festa de casamento e o quanto estava feliz. Sua mulher era linda. É linda. E ele ali, com uma puta que provavelmente o roubaria no final de tudo. Júlio César Guedes era gerente de contas de uma agência de publicidade famosa. Tinha muito dinheiro. Era muito bom no que fazia. Com 48 anos, os cabelos já não existiam e uma barriga do tipo lua cheia formava um biótipo comum, sem graça. Sua conta bancária, no entanto, bancava aquilo que queria. Casado, três filhas, católico (ia à missa todo domingo). Sexo casual como o dessa tarde (quase noite) com quem quer que desperte seus desejos. Ele tinha dinheiro. Ele podia tudo.

Júlio nunca vira aquela garota antes. Era nova no pedaço. Rodou duas vezes com o carro pela região antes de parar. Parou. Linda. Uma puta linda e Júlio entendia de putas. Nunca tinha visto uma tão bela, tão jeitosa, tão cheia de vida. Era pequena (não chegava a 1,60). A saia curta mostrava coxas firmes, gostosas de apertar e morder. O decote escondia e mostrava ao mesmo tempo seios não grandes, nem pequenos. Perfeitos. Na barriguinha, um piercing de um símbolo que ele conhecia. Não sabia seu nome. Loira. São Paulo enfrentava seu pior inverno em 100 anos. No termômetro da esquina, o negativo era constante. Ele podia ver que ela estava arrepiada, com frio. Biquinhos durinhos. Exposta como uma carne no açougue. Júlio estava excitado. Júlio tivera um dia complicado no trabalho. “Dar uma rapidinha” (todas as últimas que ele “tinha dado”, nos últimos tempos, não tinham sido demoradas, convenhamos) e ir para o aconchego do lar no qual a mulher linda e as filhas maravilhosas o esperavam. Final de dia.

O carro para ao lado da menina. “Será que tem mais de 18?” Ele abre a porta. “Tá frio demais menina. Entra aí”. Ela entra. Não diz nada. A saia curta expõe a calcinha de algodão, branquinha. Júlio enlouquece. Quer comer ela de qualquer jeito. O cheiro. Hum.

“Quanto?”

“15, o boquete!”,  “90, tudo!”

“Carinha você hein? É de ouro?”, a gargalhada de Júlio ecoa pelo dia cinzento. Foi a sua última.

Num hotel barato de bairro esquecido no centro da Capital, Júlio não sente mais movimento algum em seu corpo. Seus olhos se movimentam com rapidez. Ele já se mijou três vezes. Está em pânico, mas não há mais nada para se fazer. A menina linda agora sem roupa passeia ao seu lado. Aquele corpo gordo de homem escroto só espera o fim. Júlio tem consciência disso. Pensa na família, nos seus pecados. Não há mais saída. No quarto fedido, só se ouve a sua respiração cada vez mais acelerada. A mulher se transfigura. Não é mais pura e indefesa. Ela mudou. Sua cara de anjo traz junto um quê diabólico. Mas e daí?

Ele vê o piercing na barriguinha da moça.

Depois, uma estocada no peito e o sangue de verdade jorra. Doeu, mas Júlio não sentiu. Outra e mais outra e mais outra.

Júlio respira com dificuldade…. até que não respira mais.

Um clichê de filme noir.

Devotada, ela tatua nas costas do infeliz mais um recado. O canivete não tem mais corte. Serve, porém. Ela admira sua obra e sorri. Está em paz mais uma vez.

“Com carinho pra você, papai!”

Ato II

A sopa quente na caneca alivia o frio da minha alma. O cheiro é bom, a sopa é rala. Tudo bem. Não posso exigir mais de quem não tem obrigação de fazer o que faz. São Paulo mudou muito nos últimos anos. E isso não significa nada. Zumbis como eu proliferam em cada esquina. Pobreza, violência, solidão. Inverno terrível. Impensável há alguns anos. Não importa o meu nome e o que eu fiz antes. Um dia desisti de tudo, deixei a porta bater atrás de mim e caí do precipício. Eu fui alguém. Fui.

A primeira coisa que se aprende quando se vai para as ruas é que o fedor no seu corpo é necessário. Ele espanta todo o resto. Espanta todo mundo. Espanta seu passado, seus erros, seus sonhos. Logo você se acostuma a isso. A barba. O cabelo. O corpo. Tudo muda. Se contorce, explode dentro de  si. O que vislumbra, então, é uma imagem desagradável que os outros fingem não existir. Esmolas aqui, migalhas ali. Um cobertor velho acolá. E ando, ando, ando, até me cansar e cair exausto em alguma esquina para dormir. O barulho do trânsito não ouço mais. Somos um só. Faço parte da paisagem e isso também não quer dizer coisa alguma.

Sou um nada em lugar nenhum…

As prostitutas daquela rua no centro sofrem com a temperatura baixa desse inverno maluco. Algumas improvisam um casaco, mas roupa demais significa cliente de menos. Os escrotos querem ver pelinhos arrepiados. Faz uns dois meses, aquela menina aparece no mesmo lugar. Me chamou a atenção desde o início. Ela era diferente das outras. Tinha um ar indefeso, casto até. Não mostrava na cara o frio que sentia. Era turrona e cabeça dura. Isso dava para perceber de longe. Claro, se alguém quisesse perceber algo nela além de seu corpo. Era linda. Fazia tempo que não sentia aqui dentro algo como agora.

A expectativa…

O importado passa uma vez. Uma segunda vez. Para. Sempre acontece desse jeito. Hoje, ela me olhou antes de entrar no carro do lobo mau. Me olhou e sorriu. Não entendi. Não havia mais ninguém naquele beco que transformaraem casa. Erasó eu e Deus. Ela não iria sorrir para Deus.

A neblina chega e me cubro como posso. Não estou com fome. Mais um dia e mais um dia. Há tempos ninguém notava minha existência. Ela notou.

Acendo uma pedra para não pensar. Viajo. Há cores agora. Estou em paz.

Ato III

O celular não dá sossego. Toca insistentemente, mas ele não atende. A noitada solitária de vodka e cocaína tinha detonado ele mais uma vez. O frio ajuda no ato de se esconder do mundo. Nunca um inverno tão rigoroso aportaraem São Paulo. Tudocinza. Tudo triste. Araújo está comemorando 20 anos de polícia. Estereótipo. Capitão de uma Força Tarefa especial, corrupto (claro), hipócrita (óbvio), racista, divorciado. Passado repleto de pecados que deixariam envergonhados criminosos de primeiro nível. Araújo é um homem comum, apesar disso. Alcoólatra não assumido. Usuário ocasional de drogas das ruas… em todos os sentidos. Quando entrou para a polícia, Araújo acreditava no sistema. Logo viu que o sistema não era o que pensava numa “faxina” que a PM fez numa favela da periferia. Doze mortos, três desaparecidos. Nenhum fichado, mas e daí? Araújo caiu na real e cresceu na carreira. Era um bem sucedido policial. Não era bonito, nem tinha charme. Por isso, não era requisitado pelas câmeras de TV quando necessário. Araújo não se importava com isso. A barriga só incomodava na hora de correr. No entanto, ele já não corria mais. Há tempos, deixara de correr. Pecados não faltavam no curriculum de Araújo.

Clichê de um filme noir proibido.

“Capitão, capitão, está me ouvindo?”

“Fala, porra!”

“Mais um corpo no centro. Outro homem de meia idade. Bem sucedido. Carro importado no estacionamento”

“Tá!”

“E capitão… mais uma mensagem foi talhada no corpo da vítima!”

“Sei!”

“Capitão, estamos esperando o senhor aqui!”

“Não enche. Eu sei o que tenho que fazer”

Tumtumtumtum.

Araújo sabia o que fazer. O quarto corpo em três meses. Prostitutas matando clientes ou vice-versa não era novidade nessa nova São Paulo velha. O que incomodava é que essa puta estava matando gente graúda. A imprensa vai cair matando. A primeira coisa que chamou a atenção de Araújo quando a primeira vítima foi encontrada foi um cheiro suave. Ele não era bom em reconhecer cheiros, mas aquele era diferente. Uma puta não usaria aquele perfume. Tinha estilo. Uma puta de esquina não tem estilo, pensava Araújo. Outros dois corpos, nada roubado, quatro, cinco estocadas no peito, a mensagem nas costas, o importado na rua. Mas tudo isso se perdia quando Araújo respirava fundo na cena do crime. O odor quase puro o dominava.

Um quarto corpo.

“Capitão, o nome da vítima é Júlio César Guedes. Publicitário, casado e blablablabla…”

Araújo não ligava para a ficha do safado. Ele fecha os olhos. O sangue já não pinga mais na poça ao lado da cama. As luzes dos carros da polícia piscando lá fora dão um charme especial quando refletem nas paredes do quarto. Ele fecha os olhos. Respira fundo. O cheiro… suave…. o absorve…. Araújo está em paz.