Explicações…

O texto abaixo foi produzido em 2007, meu último ano da faculdade de História. Sempre digo, para quem quiser ouvir, que tive excelentes professores, mestres, pessoas que me trouxeram o novo. As aulas, as avaliações traziam debates e questionamentos sobre, entre outros temas, a condição do professor em sala de aula e a consequente degradação da educação nesse país (se é que em algum momento, a coitada teve algum momento de grandeza). Enfim, desenvolvi com eles o ato de pensar, refletir. O texto abaixo faz parte de uma avaliação de conclusão de curso… vale a pena retomar esses trabalhos. 

História e memória

Arrisco iniciar meu texto, retomando a última fala do andróide de Blade Runner. Nela, ele exprime toda sua dor com a morte iminente do conhecimento que adquiriu em seus poucos anos de vida, “momentos que se perderão como lágrimas da chuva”. Ali o que viu, o que sentiu, o que sonhou, o que desejou, tudo desaparece com sua morte. Ao pensar a proposta dessa atividade sobre o ensino de História, Memória e Neoliberalismo, para desenvolver esse texto, me veio à mente toda a “sabedoria” perdida do andróide e a importância que esse dava ao fato. Uma lição ao homem? Sim, Hobsbawn se aprofundou no tema ao mencionar a “destruição do passado”. Interessante casamento proposto pelo neoliberalismo vigente no mundo.

Num cenário desses, o ensino de História surge como alternativa de duas visões/propostas antagônicas. Uma delas (a pior em minha opinião) é manter o status quo. Aceitar o aluno como cliente, se adaptar à lógica do mercado e “passar o ponto” na lousa como se nada tivesse acontecido. Concluindo-se, portanto, que a educação é um bem de consumo. A outra proposta coloca o professor de História na ponta de uma lança que mira o fim dessa “sonolência social”. A contestação ao cenário neoliberal, o “reacender da memória”, o extermínio dessa ideia que se professa de “presente contínuo” (Hobsbawn novamente) são tarefas desse profissional que é sim um “estranho” ao mundo que se configura num processo de individualismo cada vez mais bem orquestrado. Afinal, não podemos esquecer que a educação, para a elite, não é uma necessidade.

Nesse contexto, acredito que cabe a nós, professores de História, percebermos que escolha entre duas vertentes tão opostas será feita. E isso refletirá no ensino e na aprendizagem do aluno. Não sou dado à radicalização de discursos, mas estamos vivenciando uma crise generalizada tão grave que surge no ar a sensação de que não há crise alguma. Essa construção ideológica proposta pelo capitalismo lança a sociedade como refém (e me faz perguntar: será que essa sociedade não quer ser refém disso?). O passado, então, é lançado na sarjeta  e o imediatismo, o efêmero, ganham status.

Sua pergunta faz eco: “Diante disso tudo, você ainda quer ser professor?” O cenário sombrio faz refugar aqueles que se veem perdidos entre os antagonismos mostrados nos parágrafos anteriores. Capitular ou propor uma ruptura? Trabalhar numa ruptura? Sim, talvez eu seja ingênuo. Talvez o andróide seja de fato mais humano que o humano, mas creio sim que o neoliberalismo não seja um fardo para se carrregar como se nada estivéssemos carregando. Apontar suas falhas, indicar saídas, destrinchar o “manto sagrado” do capitalismo são tarefas obrigatórias da rotina de um professor que busca o velho e bom “caminho das pedras”. Refletir sobre esse curso mostrou que é possível alterar o processo de “deformidade” social que estamos sentindo na pele.

A verdade em que vivemos não é a única e nem a “verdade”. O ensino de História e seu engajamento numa proposta de projeto social (como coloca Fontana) esta presente como alternativa a essa verdade.

Natal sem o filho

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A placa no portão avisa: cão bravo. O toque na campainha confirma. A cachorrada faz uma sinfonia, chama a atenção do dono, protege a casa de um possível invasor. São bravos mesmo. Por instantes, Timoteo Salazar Marin, de 35 anos, pensa que seu presente de Natal pode estar à porta. Logo, a esperança se desfaz. “Os cachorros esperam por ele. Era sempre assim. Dava o horário de José chegar da escola e eles ficavam agitados, no portão, latindo. José cuidava deles, brincava. Comprei esses dois cachorros porque José era muito sozinho. Se davam muito bem”, lembra o pai que convive com uma espécie de mistério há quatro meses desde quando seu único filho José Luiz Salazar Morales, de 14 anos, fugiu de casa. “Só quero que ele ligue pra mim”, desabafa.

TImoteo é um imigrante boliviano. Está no Brasil há oito anos. Ressalta que está de forma legal no Brasil e não pretende tão cedo voltar à sua terra natal “Lá eu era motorista e o dinheiro não valia nada”. Costureiro, casado pela segunda vez, ele trouxe seu filho da Bolívia em 2009. Até então, o menino era criado pela avó. A mãe o deixou quando era ainda um bebê. A família vive na zona norte de São Paulo. José estava na sétima série de uma escola pública e talvez, para Timoteo, essa tenha sido a razão para o desaparecimento do garoto. “Ele não queria mais estudar. Queria trabalhar. Eu dizia com força que só queria que  estudasse, que levasse a sério senão ia apanhar. José se apaixonou por uma menina, eu não deixei namorar. Mas, ele sumiu sozinho. A menina não foi. Não sei…” disse o pai, olhando desolado para um ponto qualquer. “Ele tinha medo de mim, muito medo…”

Num sábado de setembro, ao voltar da Feira da Madrugada, que acontece no centro de São Paulo, Timoteo não encontrou o filho, apenas um bilhete que dizia que o menino chegaria à Bolívia de bicicleta. Nada mais. Desesperado, o boliviano partiu para a Rodovia Castelo Branco. Circulou por cinco horas, sentido Mato Grosso, para encontrar o adolescente. Nada. Deixou fotos nos postos policiais, voltou para casa, foi à delegacia. “Mandaram eu esperar… estou esperando”. Em seu bilhete, José não dizia claramente a razão de sua fuga. O mistério só cresceu, quando em novembro, num sábado também, o garoto ligou para a avó que ainda vive na Bolívia. Disse que estava trabalhando com bolivianos, estava “fazendo” dinheiro para poder chegar em seu país. Comentou ainda que havia quebrado a mão depois de uma queda de uma escada, sem maiores detalhes. Sobre o pai? Afirmou que Timoteo jamais o perdoaria. Po  quê? Pois é, Timoteo não faz a mínima idéia. A ligação para a Bolívia se repetiu nos sábados seguintes.

Como era José? Estava envolvido com drogas? Era violento? “Meu filho era tranqüilo, não tinha nada disso não. Pelo menos é o que eu via. Ele não queria mais estudar, não sei se isso é uma razão pra fugir de casa”. Seria o filho vítima de bullying no colégio? Os meninos bolivianos têm sido alvo de violência nas escolas da cidade de São Paulo nos últimos anos, os casos já se contam a dezenas. Por quê? Por serem bolivianos. Timoteo foi à escola esse ano justamente por causa disso. José teria sido agredido por meninos. O pai conversou com as crianças, com a diretora. “Quando eu perguntava pra ele se estava tudo bem no colégio, ele dizia que sim. Agora não sei se estava mentindo. Eu deveria ter prestado mais atenção”

Desconcertado, o pai fala baixo, não entende de fato o que se passa, tem medo apenas. “Eu ameaçava de bater se não estudasse como todos os pais fazem, o meu fazia isso. Mas eu nunca toquei um dedo nele. Eu sei que trabalhava demais, que não o controlava direito, que talvez não fosse tão presente quanto eu imaginava. Eu falhei!”, aponta mais desolado ainda com um sorriso nervoso no canto da boca. José fugiu somente  com o documento de identidade da Bolívia. Em suas ligações para a avó não mencionou que voltaria para o pai. O que de fato aconteceu com José? Timoteo não sabe responder. “Eu o quero de volta. Não haverá castigo, surra, nada. Só quero entender. Precisamos conversar mais, preciso conhecer meu único filho…” e as palavras se perdem com o latido agudo dos cães. “Será José no portão?” Não, não desta vez…

Uma noite…

Nascemos, vivemos e morremos…

Essa é a única certeza durante toda a nossa existência. Lição simples, de fácil aprendizagem e que nunca nos é ensinada. Vivemos – ou quase todos vivem – com medo da morte, consequentemente, medo de viver. Se aprendêssemos essa lição simples desde o início, passaríamos desde pequenos a apreciar o agora, o presente, aquilo que está acontecendo. Não viveríamos para o futuro, formulando projetos que nada mais são do que projetos, não olharíamos para o amanhã. E por que digo isso?

Porque esse é um agora que vale muito ser vivido intensamente. Esse agora no qual estamos presentes, vivenciando, curtindo nessa noite é daqueles instantes que ficam para sempre, que nos deixam marcas, são gostosos de serem lembrados. Se tivéssemos aprendido na escola a apreciar esses segundos, minutos no exato momento em que ocorrem pode ter certeza que encontraríamos com facilidade o caminho da tal felicidade, felicidade que não deveria ser um projeto pra amanhã e sim algo a ser sentido agora…

Nossos meninos cresceram. Talvez, chamá-los de meninos seja um exagero carinhoso, mas tenho tendência a exageros sempre. Foram tantos ao longo desses mais de sete anos de convivência. Renata, Luis Roberto, Vinícius, Lucas, Bruna, Kaíque, Karina, que eu tornaria presidenta do Brasil se não tivesse nos deixado no meio do caminho. Há tantos… E há os que ficaram até o fim. O quarteto de moços que deu tanto trabalho, mas tanto trabalho… Chegava na sala, cadê os meninos? Diretoria, professor! Vários de meus cabelos brancos têm seus nomes, mas não posso dizer que não tenha me divertido um bocado.

Já as meninas, tantos grupinhos, briguinhas, mas no fim, e que bom isso, tudo terminou bem. Ana, Letícia, Bruna, Tabatha, Stephanie, Rafaela, Raquel, Natália Costa e Nathália Torres trilharão caminhos distintos, mas sei que graça e talento não faltarão a nenhuma delas nesse contato com o mundão… Me orgulho do tempo em que passamos juntos…

Enfim, aproveitemos o agora, estejamos felizes, missão cumprida… sobre o amanhã, não sei, ninguém sabe, talvez não importe de fato… mas agora sim, sorria, agora, está tudo bem!

Aquela tal felicidade

Parte I

Nunca entendi direito como a vida funcionava. Em vários momentos, lutei contra ela, contra as coisas, bati demais e apanhei muito mais, me perdi, uma overdose aos 24, sanatório aos 30 até que me calei, parei de falar alto, bater as portas e procurar desesperadamente por sentir algo que não fosse ódio ou raiva. Aí, Bia apareceu, pagou minha fiança, me trancou num quarto, fez prometer que nunca mais me furaria, me mataria, cheiraria… Não disse nada, mas ela viu em meus olhos que não havia mais força para o combate. Me rendia, de joelhos, clássico, um clichê. Então Bia me lavou, me amou, cortou meus cabelos, limpou todas as minhas feridas, engravidou e morreu. E ficamos eu e o menino.

Queria tanto aquele menino que o luto se esvaía a cada sorriso bobo ou a cada brincadeira no parquinho. Por tanto tempo entorpecido e aquele menino me fazia tomar banho, virar um professorzinho de periferia, jogar fora toda a tequila e vodka (o vinho não joguei não, ninguém é de ferro). O mundo estava mais estranho do que sempre fora, a intolerância era a ordem, os falsos profetas clamavam por seus deuses, os carros engoliam as pessoas, a polícia decidia quem vivia quem morria, o bandido decidia quem vivia e quem morria, os jornais diziam que tudo estava bem. Demorei pra abrir os olhos para esse mundo afinal meu mundo era um garotinho órfão de mãe e isso me bastava.

Numa tarde de domingo, depois de um temporal e uma soneca imensa no sofá da sala, ouvi barulhos no meu quarto. O menino brincando, claro. Fui de mansinho para não assustá-lo. A porta estava apenas encostada, pela fresta podia vê-lo. Não posso dizer que não me surpreendi. Na verdade, nunca havia pensando nessas coisas, nas possibilidades, desejos, carências de meu filho. Eu era tão tosco, às vezes. Sei lá. O menino vestido como a mãe, passava um batom na boca, imitava uns trejeitos de uma moça da novela. Fiquei ali vendo meu filho travestido. Não posso dizer que fiquei chocado. O moleque tinha sete anos, deixa ele brincar. Ponto final.

Alguns anos depois, a diretora da escola me chamou. “Puta que pariu, vou ser demitido!” Meu coração pulava no peito porque precisava daquele emprego, talvez não porque gostasse, mas o dinheiro era fundamental pra cuidar do meu menino. Fazia conjecturas, criava desculpas, imaginava o pior cenário quando ao abrir a porta da sala de reuniões dou de cara com meu filho, todo machucado, olho roxo, nariz escorrendo sangue, chorando em silêncio. “Ele atacou um colega!”, disse a inspetora. Caralho, se meu filho estava detonado daquele jeito imagina o outro então, “atacou um colega?”. Quando a inspetora terminou a frase imbecil, o menino levantou a cabeça e o olhar que tinha naquele rostinho… ah aquele olhar… aquilo foi como uma estaca no meu peito…”Nunca mais meu filho terá aquele olhar na cara!”. Deixei a besta falando sozinha, peguei o menino, fomos pra casa. Em silêncio.

Tirei sua roupa. Lavei seu corpo. Não curei a dor, incapaz eu de cuidar do meu filho. “Pai, o Miguel estava pelado no vestiário, sem querer, eu juro, fiquei olhando, eu só fiquei olhando, aí aconteceu algo comigo, os meninos viram… e…” te espancaram covardemente … respondi pra mim mesmo. Enxuguei o corpinho machucado do meu moleque, mas sabia que tudo estava apenas começando. Eu precisava voltar a ser aquele homem que não levava desaforo pra casa, aquele animal precisava voltar, sim, era o jeito de proteger minha cria.

Mudamos de escola. Os roxos sumiram do corpo, mas a alma do menino estava incomodada, ele não se encaixava, ele queria voar livre, não se esconder, queria encontrar um sentido, um caminho. Tudo isso passava pela cabecinha do meu filho. Eu apenas deixava “todas as portas abertas” pra que ele soubesse que seu pai estaria ali pra qualquer coisa e que se fosse necessário o animal que seu pai fora um dia, voltaria pra protegê-lo. Aquele mundo não aceitaria aquilo que meu menino queria… Eu estava pronto pra briga…

“Pai”, ele tinha 14 quando decidiu falar comigo de homem pra homem. Eu sabia o que vinha a seguir, não me importava, eu o amava tanto, tanto, tanto. “Pai, eu gosto de meninos…” Olhei pra ele com tanta coisa (amor?) que não sei descrever, mais do que preocupado com aquilo que via na TV e que se referia também ao meu filho, senti um orgulho tão grande dele ter confiado naquele podre pai… Eu o abracei, não precisava dizer nada. Ele sabia que o pai estava ali… Dois anos depois, na noite de Natal, o menino chegou em casa com um moço mais ou menos de sua idade. Eu terminara de fazer uma lasanha esquisita (?) pra janta natalina, estava tenso, sei lá o que pensava quando abri a porta. “Pai, esse é o Luca… meu ami… meu namorado…” Luca olhou com um carinho imenso para o meu filho. Meu coração se acalmou, meu menino encontrara o amor de sua vida, a tal da paz que tanto procurei me abraçava, me aceitava…