A LOIRA DO BANHEIRO

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Quando aqueles garotos arrancaram minha calcinha, percebi de fato que não se tratava de um sonho. Fechei os olhos com toda a força do mundo e consegui sair de mim. Me lembrei do tempo em que papai batia na mamãe. Eu sempre fechava os olhos e voava longe. Com aqueles meninos, naquele banheiro fedido, não foi diferente. Eu tinha 13 anos. Quando papai esmurrava mamãe, tinha cinco. Mamãe morreu. Papai, não sei. Ao ficar órfã, minha vózinha chegou do interior para cuidar de mim. O cheiro dela é inesquecível, doce, acalentador. Quando estou de “bico”, procuro pensar na sensação que tinha ao ela chegar perto de mim. Era bom.

Vovó sempre me arrumava para a escola. Dizia que eu tinha de estar sempre linda. Ela penteava meus cabelos “dourados” de uma princesa. Ela dizia isso e me deixava feliz. Meu uniforme estava sempre bem cuidado, merenda gostosa dentro da lancheira. Fui feliz nesses anos. Me complicava em matemática, mas no resto eu ia bem. Vovó se orgulhava dos “10” que tirava em redação. Eu adorava escrever cartas melosas, cheias de romantismo barato, para ninguém. As escondia numa caixa de papelão rosa, em formato de coração. Tinha virado mocinha aos 11. Não foi um susto ver aquele sangue escorrendo pelas minhas pernas porque a vovó e a tia Ceci (minha fessora) já haviam me explicado que isso aconteceria. A partir daquele momento eu era uma mulher. E a vovó completou: “uma mulher dos cabelos dourados”. Foi um dia bacana.

Eu seguia crescendo e me apaixonava pela primeira vez. Guto era bonito, forte, esperto, tinha 16. Já bebia e dizem que já tinha até feito sexo. Eu gostava dele. Contei para vovó e ela pediu para eu me cuidar. “Não sei se gosto desse rapaz!”, disse. Não era ciúme ou implicância dela. Era apenas uma sensação… vovo2 copy

Um dia criei coragem e fiz um poeminha para ele. Coisa boba, coisa de menina. Mas totalmente sincera. “Meu Deus, ele quer me encontrar!” Nunca me senti tão doida quanto naqueles segundos antes de ver o Guto, sozinha. Eu estava apavorada. Queria, porém, estar com ele. “Será que ele já tinha me notado antes?” Eu mal podia me segurar dentro do meu corpo. Queria voar longe de felicidade. Naquela época, estudávamos à tarde. Ele queria se encontrar comigo quinze minutos depois do último sinal. Daria tempo para a gente conversar bastantão antes da turma da noite chegar. “Não sei se gosto desse rapaz!” Lembrei da minha vózinha. Deixei meus cabelos soltos. Uma amiga emprestou um batom bem clarinho e discreto. Estava cheirosa. Meu sapato novinho estava brilhando. Presente da vovó. “Ele ia gostar de mim?”

E sentada ali fiquei entre os pavilhões dois e três. Estava frio. Eram quase seis horas e a noite já tinha chegado. Coloquei o casaquinho que minha avó tinha feito. Estava com o cheirinho dela. Senti saudades. Levei um susto. Deixei minhas coisas caírem no chão, mas não tive chance de pegá-las. Foi tudo muito rápido. Dois amigos do Guto me seguraram com força. “Cadê ele?” Eu tinha medo desses garotos. Eram grandes e encrenqueiros. Estavam sempre na diretoria. Um deles tinha mais de 18. Me apertaram com força e me jogaram para dentro do banheiro do pavilhão dois. Caí de joelhos e bati o queixo no chão. Não estava entendendo nada. Aí, uma voz doce e conhecida quase me acordou daquele pesadelo que se iniciava:

“Quer dizer que a putinha loira quer me dar?”

Era o Guto. Seus amigos riam alto. O eco daquelas risadas naquele banheiro fedido me fez ver papai matando mamãe de novo. Foi ali na minha frente. Tinha cinco anos. Estava novamente paralisada. Não conseguia gritar, chorar. Tremia, tremia, tremia. “Vovó, segure minha mão…”

Quando aqueles garotos arrancaram minha calcinha, percebi de fato que não se tratava de um sonho. Fechei os olhos com toda a força do mundo e consegui sair de mim. Tinha 13 anos. Não estava mais em mim e isso aliviou toda a dor daqueles minutos que não acabavam. “Olha Guto, é cabacinha!” “Oba, é minha. Não tem mais isso no mundo”. “Eu primeiro, eu mando, esqueceram?” Tentei escapar mais uma vez. Um dos amigos do meu primeiro amor acertou um soco no nariz. Me afogava no meu sangue. Num instante, tão instante que quase não percebi, uma gota desse sangue caiu no meu sapato novo. “Deixa, vovó, eu limpo quando chegar em casa”. Tanta dor. O cheiro horrível daqueles animais em cima de mim. Solidão. Quando um deles quebrou meu pescoço não senti mais nada.

“Desculpa, vovó, não vou conseguir limpar o sapatinho novo…”

Ao acordar num mundo estranho, sentia frio. Estava presa naquele lugar. Meu cativeiro eterno. Nunca soube como fora meu enterro. Não vi mais vovó. Não sei há quanto tempo estou aqui. Não sei o que aconteceu com o Guto. Às vezes, me olho no espelho e choro com o que vejo. Meu rostinho todo machucado. Um rastro, um pequeno rastro de sangue que sai do nariz em direção ao queixo que nunca limpa, por mais que eu tente. Olhos fundos. Olhar perdido. Cabelos dourados não mais dourados. Enfim…

… confusa como toda menina de 13 anos.

Tenho medo do escuro. Aprendi com o passar do tempo a deixar a luz desse banheiro acesa quando todas as outras do colégio são desligadas. Não durmo e para não ficar louca, ando em círculos, acompanhando o caminho que a luz faz ao bater no piso. Solidão.

Uma vez, duas, três, tentei me comunicar com um menino. Nem todos são maus ou cruéis como o Guto. Nunca quis fazer nenhuma maldade com eles. No entanto, o susto que levavam era tão grande que os paralisava. Dois morreram de medo. Outro, enlouqueceu. Juro, não era minha intenção. Apenas queria contar a minha história…

Poxa…

Você quer ouvir a minha história?

loira

 

arte: LICIDA VIDAL

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A fé

Quando todos os deuses morreram

Nada daquilo que disseram que aconteceria aconteceu

Raios não riscaram o céu

Crateras não engoliram o mar

Eu, do inferno, a tudo via com um sorriso cínico na cara

Poderia ter feito alguma coisa, mas não fiz, não quis

Que se explodam os Deuses, pensei

 

Maria acreditava em um Deus

Seu papai disse a ela:

“Nosso Deus é o único Deus e não há outro que te salvará quando o fim chegar”

De chupetas e chiquinhas, Maria não entendia as palavras de seu pai, mesmo assim as seguiu

De verdade, não havia para ela outra alternativa,  muito menos Maria sabia que poderia escolher acreditar no que quisesse acreditar.

 

Maria tinha um só Deus e isso a ela bastava.

Quando a guerra na montanha mais alta do mundo teve início, a menina não imaginava ser algo tão sério. Ela sabia que seu Deus era forte, único e aqueles que queriam seu trono nada poderiam fazer.

 

Coitada da Maria, seu Deus não aguentou 24 horas de batalha

Mesmo assim, Maria rezava, rezava, rezava

A Fé de Maria era pura, iluminada e por mais que dissessem a ela “Os Deuses estão mortos”, fingia que não ouvia, que não seria possível um mundo sem seu Deus poderoso…

 

Um dia, Maria acordou,

percebeu um silêncio diferente,

mais profundo,

mais denso,

mais tolerante

afinal o silêncio não é todo o mal que existe no mundo…

 

Maria ouviu esse vazio de som e chorou

Chorou porque agora ela percebia que de fato toda a sua fé não levara a nada

O todo poderoso não tinha poder algum.

 

A consciência das coisas

Maldição

Quero a ignorância da fé cega

Quero a ignorância do não saber

Quero a ignorância…

 

A menina contra tudo e todos,

Contra o silêncio piedoso,

Contra as pedras que voaram contra seu rosto,

A menina rezou, rezou e rezou…

 

Sabia que dessa vez seria diferente,

Ninguém a ouviria, se é que em algum momento, a ouviram

 

Os céticos, os cínicos, os sobreviventes

Olhavam pra Maria

“Pobre menina Maria, enlouqueceu”

 

Quando todos esqueceram seus Deuses,

Maria, a louca, a crente, subiu ao céu,

E na montanha mais alta do mundo, Maria resgatou o corpo de seu Deus…

 

Velou-o

Enterrou-o

Abençoou-o

 

Ah, Maria, pobre Maria…

A praia

Muito pensei em meu câncer na tarde que passou enquanto longa, longa caminhada fazia naquela praia sem fim, com os pés nus banhados pela onda gelada porque assim deveria ser ela no inverno cinza que pesava em minha cabeça, ao meu lado Calili, a cachorra do mais triste olhar do mundo…

As imagens, os cheiros, a paisagem, a areia molhada, tudo flertava com a melancolia, com aqueles velhos clichês. Não me sentia assim, no entanto. Havia dentro de mim respostas que há tempos procurava e então tudo ficou mais simples, claro, não triste, ok talvez um pouco, mas esse vestígio da escuridão sempre fez parte de mim, de outras eras…

Decidi que nada faria para derrotar minha doença. Não quero tubos me “tubeando”, nem monitores monitorando, nem doutores piedosos oferecendo a última morfina do pacote. Me chamarão de covarde por não lutar, mas essa foi a constante dessa vida que me esvai, lutar… Não quero mais. Estou muito cansado. E fim. Slow motion suicide e por quê não? Dono de meus pensamentos, desejos, assim está acertado. Eu faço o meu final.

Relembrei também todos os erros, todos, todos. A culpa de boa parte deles sempre pesou em meus ombros. Mas também fui capaz de aceitar que falhei porque quis acertar e não o contrário. Nunca pisei em alguém para conseguir algo e isso vale como moeda de troca. Meus pecados, no fim, só fizeram mal a mim portanto eu me perdoo. Segue a vida ou o que resta dela sem peso algum, sem um se sequer.

Arrependimento, ao menos, nunca houve…

Houve segundos dessa caminhada em que minha mente voou aos tempos em que eu era filho de meu pai, do como ele me abandonou e ainda das tantas vezes que baixei a guarda e deixei que ele voltasse e nenhuma atenção tive. Cansa ser rejeitado. Ele, não perdoarei no meu fim e não o quero ao meu lado quando o caixão pobre carregar meu corpo morto…

Minutos pensei no quanto me atirei nas histórias que surgiram, sem medo as encarei, sofri, mas antes de tudo vivi e foi bacana pacas…

Calili corre da onda, é engraçado,  ela toda manca da pata direita, ela tão velha quanto eu, se diverte, late, corre feito boba…  eu sorrio pra ela porque eu mesmo não poderia ter escrito melhor final…

Mas há um epílogo…

E nele, claro, há um menininho que tem os olhos da mãe, mas o nariz é meu, o gênio é meu, a franja é minha, a cabeça dura é minha, o coração é meu, há ainda a menininha que não tem mais a testa machucada, não está mais quieta, melancólica nem bicuda, ela sorri o sorriso maior do mundo, o vestidinho rosa, o cabelo escorrido, liso na testa, que ela tira com a mãozinha fazendo de um ato tão singelo talvez a coisa mais linda que já vi na vida…

Tem ainda a velha senhora de olhos cinza, tão pequeninha, de aparência frágil, mas nada disso, mulher forte, forte, poucas palavras, as que saem de sua boca são as necessárias… linda, linda, linda…

Os três estão lá naquela ponta distante da praia, acenam, badernam, dizem coisas que não consigo ouvir… paro… olho os três e sei que a sensação de eletricidade que perpassa meu corpo é o sinal de que acabou, sim acabou, mas quem disse que isso é ruim, não é não…

Estou voltando pra casa…