A escolha

Maria corria da vida.

Alguns (ou todos) diziam se tratar de um grande pecado afinal a moça nunca fizera questão alguma de abraçar a graça que lhe fora concedida por aquele que de todos ri.

Cansada, ela de verdade não se importava e por isso apenas fugia, se lançava pra bem longe daquele que acreditavam ser o bem mais precioso. Maria não queria viver, nunca foi sua escolha, nunca foi sua intenção, não queria agora nessa vida, nesse momento, com essas roupas, cabelos e gírias.

Maria não pertencia a nada, a ninguém, a lugar nenhum. O não pertencimento é o que enchia seu peito vazio do desejo de viver. Poxa, essa menina nunca quis a luz… nunca.

Os nove meses já haviam passado. A primeira filha daquela família já deveria ter vindo ao mundo. Que nada. Irritado, o bebê se escondia o quanto podia naquela escuridão que lhe aquecia, alimentava, protegia. Por isso, antes de ser chamada Maria, a criança se recusava a fazer o que os outros queriam que ela fizesse. Não vou nascer e pronto, disse. Se enrolou no cordão de sua mãe e lá ficou esperando pelo fim. Roxinha, roxinha, roxinha. Quando saiu de dentro de sua mãe, agora sim, Maria não chorou, apenas desapontada ficou. O médico feliz disse que ela tinha apenas mais três horas de vida. Foi salva por Deus, um milagre, um milagre. Olha só, Maria, só mais três horas e nada do que aconteceria depois, aconteceria. Aí, Maria, tadinha, chorou sentida, de tristeza, pela primeira vez.

Dias faltavam para a Copa do Mundo começar. Maria gostava de poucas coisas, uma delas era futebol. Era uma menina diferente, seu cabelo sempre curtinho, os peitos crescendo e sua ira idem. Saiu da escola, um frio com cara de frio mesmo gelava seu sangue, ela tinha onze anos e sua cabeça voava longe sempre. Aqui, no lugar que ela estava, nunca era o lugar, entende? Ela sabia que era de lugar nenhum. Descia pela rua, rumo ao ponto de ônibus, olhava pro céu nublado que tinha uns rasgos bonitos de sol que tentavam, tentavam, tentavam passar, mas não conseguia. Gosto dessa nuvem que não deixa o gigante passar, disse a menina. Ela não percebeu em instante algum, só no instante final e aí já não interessava mais, que no caminho contrário subia um daqueles caminhões imensos, pesados, cheios, mas esse estranhamente veloz. Maria fechou os olhos e sorriu, ufa, agora acabou, mas que nada. Alguém (que droga), a puxou no momento exato como acontece naqueles filmes feitos de açúcar.

Maria sentiu só o sopro daquilo que sempre quis.

Caramba, Maria, será você imortal? Ela não acreditava nessas coisas. E foi tirar a dúvida quando chegou aos 20, na verdade, 21. Dessa vez, ela correria tão rápido da vida que só a morte poderia alcançá-la. Era o que a doce e raivosa menina queria, por quê raios ninguém entendia esse seu desejo? Maria não gostava da vida, da dor que sentia forte no peito que nada tinha além dessa dor que não passava nunca. Maria zumbiava e nada mais. Invisível. Quem no mundo pensava em Maria ao menos uma vez num dia qualquer? Quem? Quem? Quem ao dormir falava baixinho como uma oração espero que Maria esteja bem? Ninguém, convenhamos, sem hipocrisia. Maria poderia ser qualquer uma, não fosse essa estranha maratona que trazia consigo desde sempre.

Então, a moça, fez o último teste. Ela não viveria pra sempre, que é isso sim uma maldição e não o contrário. Viver no lugar errado, no tempo errado, na vida errada não é viver. Maria alcançou o topo desse mundo que não lhe pertencia e lá de cimão olhou pra baixo. Viu tudo, todo o planeta,  em silêncio, parecia que agora todos acordavam e notavam aquele pequeno corpo pisado, maldito, de olhar triste que não é ódio, talvez, apenas cansaço, nem sei mais.

Maria não queria viver pra sempre. Ela precisava provar que não era imortal. Então, corajosa como sempre, sim senhor corajosa e não me importa a sua opinião, ela chegou bem na beirinha do fim daquela que era a montanha mais alta daquele mundo. Maria poderia voar se quisesse. Mas ela não queria brincar agora. Chegou ao final da linha. Olhou para baixo novamente. Não sou imortal, pensou, e pulou.

FICÇÃO

 

Pense numa realidade diferente. Um lugar no qual tudo o que você conhece e aceita como certo é diferente.  Uma dimensão que caracteriza seu bem como mal e seu mal como bem. Pense nesse mundo. Deus é o Diabo. Diabo é Deus. O caminho da ida é o da volta. O caminho da volta é o da ida. Feijão é arroz. Arroz é feijão. Dia, noite. Noite, dia. Sonho é pesadelo. Pesadelo é sonho. Sorriso é dor. Dor é sorrir.

Universo em mutação que restringe sua liberdade, mas releva seus fracassos. Lá, você pode ter o que quer, mesmo sem saber se isso é bom ou ruim. Nesse lugar que não é aqui tudo parece muito com o que há aqui. Mas não é aqui. É diferente. Nessa atmosfera, nos conhecemos no tempo certo, sem mais nem menos. E ficamos enquanto o tempo quis.

Em silêncio…

Isso porque nesse sistema que não é o nosso – mas é tão parecido – o silêncio não é crime, nem dor, nem marasmo, nem fim. Então, lá o que não é igual, é igual. O igual não é o que é igual. Aí, a confusão e o medo não surgem, não têm espaço. Sentimentos frios como esses vagam perdidos como almas.

Almas como a minha que vaga pelo mundo real querendo ser encontrada. No outro lado, eu não preciso ser achado, descoberto.   Simplesmente, estou lá e sei o que estou fazendo. Você também. Nessa paisagem que não é a nossa, a paisagem parece ser a nossa. Mas não. Ali, a escuridão é para ser sentida. No entanto, ela não assusta. O errado é certo. O certo é errado.

Pense numa realidade diferente.

Lá, o fim da história é o início.

O início é ponto final….

Instantes

10…

O ponteiro dos segundos anda lentamente. Sei tudo o que está por vir. E aceito o destino, mesmo não acreditando nele. O peito dói como nunca, mas não é medo do que está ali pronto para acontecer. È uma dor assim, dor que não existe, que incomoda só quando se respira

 

9…

O ar muda. O vento sossega, mas voltará com força daqui a um momento. É possível ainda olhar para as estrelas. Vejo a lua também. Bonita, grande, tão solitária e melancólica. Como a lua se sente ao olhar para a Terra? Penso nisso…

 

8…

Busco vida nesse fim e sentido para um monte de coisas. Não dará tempo, enfim, para achar resposta alguma. Lá no fundo, uma trilha sonora chorosa lamenta denial, denial, denial… Sou espectador de tudo o que eu sabia que aconteceria um dia. Que bom, dessa vez não tive culpa!

 

7…

Fecho os olhos, mas os abro rapidamente. Não quero perder nada. Minha curiosidade, inquietude e teimosia me levaram a esse momento. Eu fui responsável pela minha vida, apesar do destino, três segundos atrás…

 

6…

Só penso na dor que não existe no peito. E no quanto essa dor dificulta a respiração. Todos correm. Pânico. Mas eu não quero correr não. Estou bem aqui. Cansado para fugir. Nunca fugi… não fugirei agora. ..

 

5…

Vejo os quatro cavaleiros. Eles são ferozes, cruéis e devastam tudo. Tudo. O céu agora é vermelho e as estrelas disseram adeus. Tchau, estrelas. A lua, eu acho, só chorou.

 

4…

Toco o braço da tatuagem. Acaricio como se fosse ela. Um toque leve, discreto, ninguém notaria. Um toque só para dizer estou aqui não tenha medo minha mão vai segurar a sua e queira ou não tudo acabará bem não tenha medo menina eu cuido de você agora no fim e no pra sempre que virá depois disso…

 

3…

Fecho os olhos de novo.

 

2…

Abro esses olhos castanhos que já brilharam por coisas tão simples. Meus olhos disseram tudo sempre. Eles nunca mentiram. Nunca. Meus olhos me entregaram e não me importo com isso…

 

1 …

Acabou. A explosão varre tudo e me leva junto. Só pó resta e não sei mais de mim. Tudo e nada. Assim é o fim.