Outside

Fiquei fora o dia todo. Estudei, trabalhei, andei quilômetros por aí. Vi uma pessoa morta, que acabara de morrer. Ainda de capacete, policiais ao seu lado, no meio da rua, nenhum movimento do corpo. Olho pra sua mão esquerda, nada. O peito não sobe e desce. Os olhos não se abrem. Morta. Passo por ela, dois metros de distância. Volto minha cabeça para ela duas, três vezes, enquanto me distancio seguindo meu caminho. Os pés doem, o par velho de tênis. Ela morreu, eu estou vivo. Não me dou conta no momento porque meu dia não havia acabado. Tenho que editar, publicar, divulgar. É uma rotina de poucos anos, que mal paga minhas contas, mas me faz isso, me faz viver sem máscara alguma. Máscaras essas que aprendemos a usar desde pequenos porque senão ninguém nos amará. Não gosto delas, não as uso e termino sozinho no último capítulo, mas tudo bem! Como meu almoço janta como fazia quinze anos atrás, qualquer pão com o queijo quente derretendo e queimando o céu da boca. Enquanto a lua enche todo o céu e pisca pra mim quando passo pela janela e com desdém a ignoro, finjo ignorar, mas sempre penso “como é linda”. Como meu lanche, tomo meu Danone de uma marca baratinha, banho quente que esfola a pele, a barba que continuará na cara porque assim será, o cansaço e decido dormir cedo para um sábado, são dez e pouco… Desperto agitado com o coração doendo, sabendo que o coração não dói, por volta das duas da manhã. Tenho sede. Ouço um passarinho com insônia cantando na minha janela. Lá longe, a noite dos outros não acabou. Decido então escrever uma história boba de um dia normal num único parágrafo. Penso na menina que morreu, penso na menina que está viva. Minha cabeça é um mar gigantesco de pensar. Mais ondas, mais ondas, maiores, maiores, maiores, pensar, pensar, pensar. Fiquei fora o dia todo…